02/03/2026 - Passageiros no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em Cumbica
Rovena Rosa/Agência Brasil
O conflito no Irã e na região do Oriente Médio mudou os planos de brasileiros que iam viajar para países da região. Companhias aéreas que operam voos para esses destinos precisaram cancelar partidas e chegadas.
Desde sábado (28), 24 voos que passariam pelo Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, foram cancelados.
O Procon-SP informou que as companhias aéreas são obrigadas a remarcar ou reembolsar as passagens, mas alerta que, neste momento, a primeira preocupação deve ser a segurança dos passageiros.
Em situações excepcionais, como é este caso, o princípio da preservação da vida é o que deve prevalecer nessas situações.
Geyson e Luana contam que iam comemorar o aniversário de 10 anos de casamento em Dubai, e o de Luana. Eles saíram de Florianópolis e foram para São Paulo, onde embarcaram em um voo da Emirates e voaram por 13 horas. Já estavam sobre a costa da África, na manhã de sábado, quando o piloto avisou que teriam que voltar.
“Estava todo mundo, assim, bem esgotado. E quando ele deu a notícia que nós teríamos que voltar, todo mundo ficou: 'nossa, não acredito'. As pessoas falavam: 'meu Deus, vou até São Paulo de novo?'. Então fomos pegos de surpresa.”
De volta a São Paulo, a companhia aérea pagou alimentação e hotel até esta segunda-feira (2). Mas, sobre a passagem que compraram, nenhuma resposta — nem pelo telefone, nem na loja da empresa aérea no aeroporto, que está fechada.
“Nós estamos entrando em contato direto, inclusive a agência que a gente contratou pra fazer essa viagem está em contato desde o primeiro dia e a gente não está tendo retorno deles. Inclusive, hojem estamos aqui e estão todas as centrais fechadas e se tu tenta contato pelo telefone não consegue. Um descaso total, né?”, disse o casal.
A família da Lidiane Fleury espera ser reembolsada, mas apenas para diminuir o prejuízo. Todos viajariam nesta segunda-feira (2) para a China, com conexão em Doha, pela Qatar Airways.
Desde sábado, quando viram as notícias dos ataques no Oriente Médio, tentaram uma solução para a viagem, já que o espaço aéreo de Doha está fechado. Sem solução, decidiram comprar novas passagens, com conexões na Europa.
“A gente vai fazer uma peregrinação aí: Brasil-Roma, Roma-Alemanha, Alemanha-Pequim. A gente teve que excluir 2 dias de Shangai pra ir direto pra Pequim", afirmou Lidiane Fleury.
Nesta segunda-feira, eles foram ao aeroporto e conseguiram recuperar o valor gasto com as passagens originais. “Viemos até o escritório deles aqui no aeroporto de Guarulhos e a gente vai ser ressarcido, mas os outros trechos que a gente pagou, a gente não sabe. Acho que não", disse Lidiane.
A TV Globo não conseguiu contato com a Emirates para saber quando o posto da empresa no aeroporto de Guarulhos será reaberto.
O Itamaraty informou que as embaixadas do Brasil no Oriente Médio estão à disposição dos brasileiros durante este período de conflitos.
Bombardeio
Estados Unidos e Israel realizaram um ataque coordenado contra o Irã, no início da manhã deste sábado (28). Explosões foram registradas na capital Teerã e em ao menos outras quatro cidades. Em resposta, o Irã disparou mísseis contra Israel e atacou bases americanas no Oriente Médio.
Autoridades de Israel afirmaram que o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, e o presidente Masoud Pezeshkian foram alvos do ataque, mas os resultados da ação ainda não estão claros, segundo informações da agência Reuters.
Mais cedo, fontes disseram à Reuters que Ali Khamenei não está em Teerã. Não há detalhes sobre seu paradeiro. A agência estatal iraniana IRNA afirmou que o presidente Masoud Pezeshkian está em segurança.
O que se sabe do ataque de EUA e Israel:
Agências de notícias informaram que mísseis atingiram áreas próximas ao palácio presidencial e a instalações usadas pelo líder supremo em Teerã, capital do Irã.
Segundo a agência estatal iraniana Fars, explosões também foram ouvidas nas cidades de Isfahan, Qom, Karaj e Kermanshah, todas em diferentes regiões do país.
O espaço aéreo iraniano foi fechado.
40 estudantes de uma escola de meninas no sul do Irã morreram durante o ataque, segundo agências iranianas.
Exército israelense afirma ter atingido "centenas de alvos militares iranianos", incluindo lançadores de mísseis.
O que se sabe sobre a retaliação do Irã:
Em resposta, o Irã lançou mísseis e drones contra o território israelense, onde sirenes de alerta foram acionadas.
Diversas explosões foram ouvidas em outros países da região, como Catar, Bahrein, Kuwait, Jordânia e Emirados Árabes - países que têm bases norte-americanas.
Em comunicado, os Emirados Árabes Unidos disseram ter interceptado vários mísseis iranianos e que uma pessoa morreu na capital Abu Dhabi. Uma explosão também foi ouvida em Dubai, segundo testemunhas.
?? Contexto: Essa é a segunda vez em menos de um ano que os EUA atacam o Irã. Em junho de 2025, uma operação norte-americana bombardeou estruturas nucleares iranianas. A ação ocorreu em apoio a Israel, que travava uma guerra contra o país.
Trump diz que objetivo é destruir programa nuclear do Irã
O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que o objetivo do ataque é destruir o programa nuclear iraniano e proteger o povo americano de ameaças. Militares dos EUA afirmam que ação pode durar dias. O Pentágono classificou a operação como "fúria épica".
"Garantiremos que os representantes terroristas do regime não possam mais desestabilizar a região ou o mundo, e que o Irã não obtenha uma arma nuclear. Este regime aprenderá em breve que ninguém deve desafiar a força e o poder das forças armadas dos Estados Unidos", disse Trump em um vídeo divulgado nas redes sociais.
Trump incentivou a população iraniana a pressionar pela queda do regime dos aiatolás e instou militares a se renderem ou irão "enfrentar a morte certa".
A operação ocorre após semanas de negociações entre os EUA e o Irã na tentativa de fechar um acordo que limite ou encerre o programa nuclear iraniano.
EUA e Israel realizam ataque coordenado contra o Irã
Netanyahu fala em 'eliminar ameaça existencial'
O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, afirmou que a operação é para "eliminar a ameaça existencial representada pelo regime terrorista no Irã".
Netanyahu afirmou que a ação "criará condições para que o povo iraniano tome as responsabilidades do seu destino".
Fumaça é vista em base Bahrein em suposto ataque do Irã em retaliação aos ataques dos EUA e Israel
Reuters
Cerco no Oriente Médio
Os Estados Unidos ampliaram sua presença militar no Oriente Médio nas últimas semanas com o envio dos porta-aviões USS Abraham Lincoln e USS Gerald R. Ford. As embarcações se somaram a navios de guerra e às bases militares já mantidas pelos norte-americanos na região.
Ao todo, os EUA controlam ao menos 10 bases em países vizinhos ao Irã e mantêm tropas em outras nove. Há ainda relatos do envio de aeronaves para a Europa e Israel.
Enquanto isso, o Irã realizou exercícios militares conjuntos com Rússia e China. Imagens de satélite mostram também que o país tem fortificado e camuflado suas instalações nucleares.
Onda de protestos
A pressão americana sobre o Irã ganhou força no início do ano, após uma onda de protestos contra o o regime do aiatolá Ali Khamenei. O governo iraniano reagiu aos atos com forte repressão, deixando milhares de manifestantes mortos.
À época, Trump ameaçou o regime com uma ação militar caso a "matança" continuasse, mas os atos enfraqueceram diante da repressão brutal. O presidente dos EUA passou então a exigir um acordo nuclear - foi quando começaram as negociações.
Por volta do dia 20 de fevereiro, o Irã voltou a registrar protestos. Desta vez, de estudantes que retomavam o semestre estudantil. Teerã novamente advertiu os manifestantes a não ultrapassarem "limites".
Crise no Irã
O Irã enfrenta dificuldades econômicas há anos, impactado principalmente pela reimposição de sanções pelos Estados Unidos. A medida foi adotada em 2018, quando Trump deixou um acordo internacional sobre o programa nuclear iraniano.
Ao retornar à Casa Branca, em janeiro de 2025, Trump retomou uma política de pressão máxima contra o Irã.
Em setembro, sanções também foram impostas pelas Nações Unidas, levando o governo iraniano a realizar reuniões para tentar evitar um colapso econômico.
A situação também foi agravada pelo conflito entre Irã e Israel, em junho. À época, forças israelenses e dos EUA realizaram ataques contra alvos ligados ao programa nuclear iraniano.
Em meio a esse cenário, a população passou a enfrentar inflação elevada, acima de 40% ao ano. O descontentamento também cresceu diante da desigualdade entre cidadãos comuns e a elite do país, além de denúncias de corrupção no governo.
No fim de dezembro, o presidente do Banco Central do Irã renunciou ao cargo. A mídia iraniana afirmou que políticas recentes de liberalização econômica pressionaram a moeda local, levando a uma rápida desvalorização.
Somente em 2025, o rial iraniano perdeu cerca de metade do valor em relação ao dólar e atingiu a mínima histórica neste mês.
O contexto econômico se soma a tensões políticas internas. Desde a Revolução Islâmica de 1979, o Irã é uma república teocrática, em que a autoridade máxima é o líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei. Ele está no poder há mais de 30 anos.
O regime é alvo de críticas por violações de direitos humanos e restrições a liberdades sociais, especialmente entre os mais jovens, que encabeçaram vários protestos nos últimos anos.
Disputa antiga
Não é de hoje que Irã e Estados Unidos vivem relações tensas. Os países acumulam desavenças desde 1979, quando a Revolução Islâmica implantou o regime dos aiatolás, que dura até hoje.
De lá para cá, os dois países trocaram uma série de hostilidades, com os EUA apostando em sanções econômicas e embargos comerciais para pressionar o Irã, principalmente para evitar que o país desenvolva armas e apoie grupos armados no Oriente Médio.
Durante o governo de Barack Obama, as relações tiveram certa estabilização, o que contribuiu para o acordo histórico de 2015, que limitava o programa nuclear iraniano.
Dois anos depois, no entanto, Trump retirou os EUA do tratado, ao afirmar que o Irã continuava em uma corrida armamentista e retomou sanções econômicas.
No início de 2020, os dois países viveram uma grande crise após o governo Trump lançar uma operação que resultou na morte do general Qassem Soleimani, principal figura da estratégia militar iraniana e muito próximo do líder supremo.
No ano passado, os EUA lançaram um ataque ao Irã em apoio a Israel para destruir instalações nucleares iranianas. O bombardeio resultou em um contra-ataque limitado contra uma base americana na região e em um acordo de cessar-fogo.
Infográfico mostra cerco dos EUA ao Irã
Arte g1
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